Quarta-feira, Agosto 16, 2006

Frio e molhado...












Que dor de cabeça...
Onde estou?
Está frio. Está molhado. Onde estou?
Que lugar é esse?
No chão, estou jogado ao chão...
O que será que houve?
Não me lembro do que aconteceu. Apenas me lembro que...
Dor...
Ainda dói...
Minha cabeça, algo clama por paz...
Minha cabeça dá reviravoltas por dentro...
Algo está esquisito, algo está ruim, amargo...
Minha boca...
Não consigo mover meus braços...
Minhas mãos suplicam para que eles se movam, mas, apenas consigo fazer com que as mãos e um pouco dos pés se movam...
Mas, como caí?
Se caí, quando caí?
Não me lembro, mas sinto a dor...
Um barulho em minha mente, um baque surdo...
Algo em direção a mim, algo que despencou de algum lugar...
Um alguém?
Está muito frio, gélido...
Meu corpo instintivamente se encolhe...
Mesmo sem poder me ver por fora, sinto que vou formando uma posição fetal...
Quero proteção, sinto muito frio...
Algo molhado...
Está escuro, não dá para ver, mesmo que quisesse, está difícil me mover...
A cabeça lateja, cada vez mais...
Aquela pequena luz, um facho sem força, mas que brilha logo em frente...
Uma porta entreaberta...
Dói muito, parece que apertam meus ossos...
Esmagam minha cabeça!
Por que dói tanto?
Não agüento, preciso gritar, mas...
Nada sai...
Por muito tempo, após uma luta concentrada, movo alguns centímetros meu braço...
Toco minha face e sinto o frio...
Vem do chão, vem de baixo...
Água?
De onde vem essa água?
Estarei em uma poça, em um beco na rua, em um túnel assombrado?
Tenho que tentar me levantar, porém o frio, a dor, a exaustão, tudo, eles não deixam...
Tateio mais minha face, subo...
A água tomou conta de meu rosto, está respingado, devo ter caído de mal jeito...
Escorreguei...
Ainda continuo subindo...
Meu cabelo está ensopado...
Chego em minha nuca...
Molhado, água, frio e...
O que é isso?
Algo duro, um bico? Algum objeto que estava na água?
Prendeu em meus cabelos...
Tento tirar, mas dói, repuxa...
Não! Dói muito!
Algo como uma gelatina sai dali, mas a borda ainda espeta...
Volto com minha mão até minha fronte...
Preciso tentar ver o que é isso...
Pelo que tenho de luz a minha frente, transcorro minha mão até um ângulo que possa me favorecer de claridade...
É uma pedrinha, uma pedrinha vermelha...
Minha cabeça...
Frio...
Molhado...
Cabeça?
Molhado?
Bico?
Pedrinha?
Buraco?
Coágulo?
Oh meu deus!
Não é água! É sangue!
Não é pedrinha! É um coágulo!
Não é um objeto pontudo! É a borda de um burado!
Minha cabeça!
Cai e bati minha cabeça!
Meu Deus! Estou morrendo!
Isso tudo a baixo de mim é sangue!
A água que me esfria é sangue!
Não me movo. Algo me afetou!
Perdi minha movimentação, aos poucos caminho uma escuridão...
Tenho que me arrastar para a luz...
Estou sem forças...
A dor de cabeça aumenta, o buraco lateja...
Meus pés, meus braços, tudo se entrega...
A luz, minha única esperança...
Esvai-se...
O brilho daquela luz aumenta, a porta se abre...
Tenho uma ponta de esperança, mas logo em seguida perco-a...
Uma sombra se projeta sobre a luz, uma sombra, dois pés, uma vestimenta, e um objeto...
Passos a frente, um sapato, uma calça de linho, negra, e então cai...
Com força e sem nada para pará-lo...
É um martelo que o indivíduo portava...
Não caí, me acertaram...
Uma martelada em minha cabeça...
Não é água, é sangue...
Não é objeto, é um buraco...
Não vejo a luz, apenas a escuridão...
Aproximam-se, ambos, a escuridão e o tipo que acabara de chegar...
Meus olhos tentam lutar, mas a dor e o frio prevalecem...
Talvez haja paz...
Ainda me resta um pouco de força...
Abro novamente o que posso dos olhos...
O bastante para ver um rosto...
Ajoelhado ele me olha nos olhos...
Quando percebe, abre um sorriso escroto...
Fiel ao prazer que sentia...
Que psique terrível...
Retira o chapéu que possuía em sua cabeça e o põe no meio de suas pernas...
Com suas mãos enluvadas, pega em meu queixo e faz com que olhe para ele...
Dá uma piscadela, me deixa na posição ideal e põe sua mão para trás...
Arrasta algo do chão, algo metálico...
Quando vejo, com o rabo dos olhos, percebo que veio da porta até mim chutando o martelo...
O pega e ergue sobre minha cabeça...
Escorre-me uma lágrima...
Minha vida passa pela cabeça...
E a última imagem se eterniza naquela figura crua...
Gélido e encharcado, tenho meu fim...
Minha visão se torna turva segundos antes, e no momento do contato com aquela superfície assassina, gelada e molhada assim como eu, de meu próprio sangue, tudo escurece. Ainda tenho tempo de ouvir o barulho. Uma, duas, três. Algo se estraçalhando, Ferro e carne se beijando. Minha mente fica consciente por esse tempo e no quarto toque eu apago...
Está frio...
Está molhado...
Não importa mais...

Sexta-feira, Agosto 11, 2006

Retorno...

Quanta tempo eu levei para voltar à fenda...
Quanto tempo esperei para dar continuidade à projeção da escuridão...
Quanto tempo esperam por mim? Aliás, será que esperaram por mim?
Quanto tempo perdi? Quantas almas deixei de sustentar?
Quanto tempo desperdicei pensando em lonjuras e tentando substituir emoções?
Talvez eu esteja errado em me ceder o desejo que vocês tem a mim, ou melhor, tenho certeza que nenhum de vocês – mesmo que poucos – tenham pensado no porque do desaparecimento. Mas como sou um locutor de fábulas, um mágico das fantasias, um psicopata do terror e um articulador da loucura, irei retornar mesmo que a falta não tenha sido sentida. Irei voltar para os que NÃO me esperavam...

Como disse John Wilmot:
“Meu nome é John Wilmot (Gustavo Gaspar), Conde de Rochester, e eu não quero que você goste de mim.”

Em breve retornarei... Em breve...

Mais uma vez peço-lhes que sejam bem-vindos ao meu recanto...

Sejam bem-vindos à FENDA DA NOITE...

Gustavo Gaspar

Terça-feira, Fevereiro 28, 2006

Truster & Hope - A resposta de Roy

Nova cidade. Novo bairro. Tudo mais tranqüilo do que antigamente. Era essa a idéia fixa na cabeça do mais novo morador daquela casa.
Realmente as lembraçnas do que havia acontecido naquela época já estava se dissipando. Com o tempo acabamos deixando que as memórias se vão, se escondam no canto de nosso cérebro. Algumas vezes lembramos, por estarmos vendo alguma imagem ou algum tipo de coisa que nos faça ligar uma uma a outra, mas bem ou mal, elas desaparecem. Foi então, passados três anos de uma tragédia em família – que poderia ter sido pior – que as memórias se foram por completo. Não perdia mais o sono à noite. Sua mulher não acordava gritando e suando frio altas horas da madrugada. Os sustos cessaram. Em fim, parecia que havia encontrado a paz.
Em uma manhã na época das férias, onde as crianças começam a percorrer as ruas – as menores percorrem o jardim de suas casas – as brincadeiras começam. É bom ter felicidade a nossa volta. Nos envolvemos. A cirança que mora nessa casa também já está crescida. Com a mesma idade do tempo que havia passado, ela já podia ficar em jardins vizinhos com amigos, ou vice-e-versa. Sempre junto com as crianças estavam Hope e Truster. Os dois cachorros da raça dogue alemãoque a família tinha adotado. Não fizeram parte do passado doloroso, não diretamente, mas são parte do que aconteceu.
Após tanta reviravolta, os donos do antigo cão, Roy, se culparam pelo que havia ocorrido. O pai desta família o matou por engano. Sua mulher sempre lhe diz que ele entendeu o que se passou, e morreu com a alma limpa, certo de que o dono estava fazendo a coisa certa.
Ele não podia falar. Não podia expressar-se e me dizer que estava tudo bem. Me dizer que já tinha tomado conta de vocês. Era o que ele sempre dizia para sua esposa. Tudo que fiz foi apertar aquele maldito gatilho e estraçalhar o pequeno Roy. A cada dia que se passava, ele se culpava mais e mais. Decidiram então adotar dois filhotes da mesma raça – não gsotavam de usar a palavra “comprar”, diziam que não se comprava uma vida. Foi aí que surgiram os novos integrantes daquele lar. Hope, uma fêmea negra muito carinhosa, e seu irmão Truster, um macho da cor cinza totalmente desengonçado. Esse último lembrava bastante o antigo integrante da família. Além de ser acinzentado, tinha o rosto com o mesmo formato e os olhos que, tinha vezes, pareciam denunciar que ali dentro estava o bom e velho Roy. Todos adoravam aqueles dois brincalhões. Três anos de existência. Eram ainda dois bebês.
Naquele mesmo dia, começou a ventar forte. Poucas horas mais tarde, o céu já estava da mesma cor de Truster. Um cinza forte e escuro. A luz já não conseguia atravessar as nuvens e os pais começavam a chamar seus filhos para dentro de casa. Ia cair uma chuva forte.
Os cães corriam para lá e para cá. Alguns filhos de vizinhos que estavam no jardim dessa família já iam sendo buscadas pelas mães e pais. Aos poucos o bairro já estava vazio e escuro. Foram para dentro de suas casas, colocaram os dois bebês para dentro, e fecharam a tudo. Portas e janelas. O dia seguiu, e a noite caiu.

“Chovia muito aquele dia. Foi como se do nada tivesse vindo nuvens espessas e pesadas para nos banhar. Estava um dia muito bonito, e não estava calor. Foi uma das coisas que não se tem explicação. Mas que com certeza, como todos falam, trouxe junto com elas o que aconteceu.” - Dizia um dos moradores.

“Não gostamos de comentar isso. É passado. Mas entendemos que o que sabemos de cór e salteado outros não sabem. É difícil comentar algo assim, conheciamos aquelas pessoas já tinha anos. Não eram muitos, mas era sim um bom tempo. O que acontece é que muitos falam uma coisa e outros falam outra coisa. Já fomos taxados de “cidade amaldiçoada” e não ligo para isso. Não sei explicar o que aconteceu, mas não acredito nessas coisas. Acho que foi uma tragédia, nada mais do que isso. Acontece todos os dias nesse mundo.” – Outra pessoa da cidade dava seu relato.

“Eu vou te dizer o que de real aconteceu. Você acha que isso é uma mera coincidência de fatos? Veja bem, não sei se você sabe, mas essa família já estava destinada a isso. Você sabe o que aconteceu antes de se mudarem para cá? Eles não falavam nisso, até entendo, era uma coisa ruim e que queriam esquecer, mas não era preciso que contassem. No dia que colocaram o pé aqui, senti o ar se tornar pesado. Logo reconheci aqueles rostos. Principalmente o do marido. Passou no notiário há algum tempo antes de eles aparecerem. Eles tinham um cão da mesma raça antes disso tudo. O homem o matou achando que ele era o responsável pela morte do filho, esposa e empregada. Sendo que somente a empregada estava morta. Foi um engano, mas o cão não viu assim.”
"Minha avó diz que tudo já fazia parte de um plano. Estava tudo, como eu disse antes, destinado. É um jogo que acontece com muitos nesse mundo. Um jogo mau. Nos é dado um presente, e a roleta gira. Dependendo de nossa escolha, ou de mera sorte, ou nós ganhamos ou eles ganham. O que quero dizer é que o cão antigo deles enviou sua rsposta àquela traíção. Aqueles filhotes sairam do mesmo lugar que ele. Vieram do inferno. Traçaram o jogo e tiveram o resultado final.” – Mais um relato.

Quando uma pessoa vai até a cidade para saber algo à respeito do que houve, acaba escutando essas coisas. Algumas normais, outras um tanto quanto assustadoras.
Dizem que é nesse dia que o céu novamente se pesa e é quando chove como o dilúvio.
O que aconteceu naquele lugar foi que, ao amanhecer do dia seguinte àquela chuva, as pessoas saíram de suas casa normalmente. As crianças puderam brincar e os jovens andarem de bicicleta pela calçada. Mas uma família ainda permanecia trancada em casa. Após alguns dias, a polícia foi verificar o local, pois alguns familiares diziam telefonar e não havia resposta. Arrombaram a porta e o que encontraram foi chocante. O homem e sua mulher estavam mortos. A mulher no andar de cima, no corredor perto do banheiro, com o corpo completamente rasgado. O homem no andar de baixo, com a cabeça separada do corpo e algumas outras partes espalhadas. Era possível ver algumas pegadas sujas de sangue espalhadas pelo local. A dúvida não se manifestou. Com certeza os responsáveis pelo crime eram os cães.
O que mais intriga a polícia local é que, nem o corpo da criança, nem os cães foram encontrados na casa.

A mesma senhora que havia dado o último relato, ainda terminou com uma frase.
"As vezes, quando olhamos fixamente para o breu do bosque, podemos ver quatro pontos vermelho sangue. Quatro pontos que lembram olhos, dois pares de olhos, cheios de ódio e pressentindo o cheiro de morte. É nesse dia que o céu novamente se pesa e chove como o dilúvio.”

Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006

Confiança e ódio...

Uma vez, alguém me contou uma história muito interessante.
Diz respeito de confiança e medo.
Alguns dizem que ocorreu de verdade, outros que é apenas uma lorota para fazer as pessoas refletirem. Sendo a primeira ou a última opção a correta, tem um sentido e com certeza faz sim refletirmos à respeito.

Uma certa noite, um homem que voltava do trabalho entrou em sua casa. Já estava realmente escuro. Sua casa ficava em uma rua tranquila, e do mesmo jeito, deserta.
Chegando mais próximo do portão, percebeu que estava entreaberto e achou aquilo estranho. Já passava das 20 horas da noite, sua mulher já devia ter trancado. Entrou e foi olhando tudo à sua volta e percebendo mais coisas estranhas. A luz da garagem ainda estava apagada, o que à essa hora é de costume estar acesa devido a escuridão. Já estava ficando aflito, e resolveu então ir até a grade da bomba da piscina. Ali ele guardava uma arma. Sempre dizia que era para proteção, que desejava nunca ter que usá-la, mas pelo que estava vendo, talvez precisa-se fazê-lo hoje. Pegou a pistola, verificou se estava carregada e se levantou caminhando até a porta de entrada. Chegando mais próximo, viu que essa também se encontrava aberta, na verdade, uma greta teimava em não se fechar, foi olhando devagar até ver o que a impedia. Uma mão. Caída ao chão ele via que o que não deixava a porta se fechar e a fazia ir e voltar – por causa do vento – era uma mão. Abriu com força e apontou a arma para o corredor. A mão que se encontrava caída no chão era de Maria, sua empregada. Via aquela cena como um falshback. Maria era uma moça jovem, mas que já estava com eles há 4 anos. Algo mais o tomou por completo. Um frio o intorpeceu. Sua mulher! Seu filho! A luz da casa estava toda apagada. Era melhor deixar assim até saber o que estava se passando ali dentro. Passando pelo corredor agora conseguia ver o que fizera Maria deitar ao chão com os olhos virados. Na altura de seu ventre um furo fazia escapar sangue que escorria até as escadas para o porão. Pôs a mão na boca e se dirigiu – desesperado e tremulo – para a porta que dava para a sala. Podia ver dali a porta para a cozinha e o banheiro. Mais um pouco a frente e então poderia ver a mesa da sala de estar e a subida das escadas para o 2º andar. Foi o que fez e ao pôr o pé no no degrau da sala, viu que não havia ninguém ali. As escadas estavam mais claras, uma luz lá em cima estava acesa. Pensou novamente em sua esposa. No que o maldito assaltante poderia estar fazendo a ela. O que ele já poderia ter feito a ela! Como estava seu filho? Como estava o que de mais sagrado existia para ele, sua família que estava acabando de construir. Nenhum som, apenas silêncio. Fez que ia de impulso para a base da escada e no mesmo instante viu uma sombra se aproximando. Alguém vinha descendo as escadas. Iria sofrer as consequências! Levantou a arma e apontou para o local. Uma forma arqueada surgiu aos poucos. Com pelos acinzentados e musculos fartos, ele o reconheceu. Roy. O cachorro que estava há mais tempo na família do que Maria. Cinco anos. O cão parou e olhou diretamente nos olhos do homem. Em sua boca existia sangue que pingava no mármore branco. Com uma força e imaginando que ele próprio era o responsável pelo que estava acontecendo, o homem disparou um tiro certeiro. Acertou a cabeça de seu companheiro. Chegando mais próximo ele fez mais 3 disparos devido ao ódio que se libertava por seus poros. Largou a arma e subiu correndo as escadas de mármore. Chegou no 2ºandar e seguiu os vestígios de sangue pelo chão. O quarto de seu filho. Parou de imediato. Viu uma cena que o fez entender tudo. O que aconteceu e o que havia feito. Um homem se encontrava deitado ao lado de sua mulher com o pescoço totalmente dilacerado. Sua esposa estava estática tremendo ao canto da cama em posição de feto com o filho agarrado nos braços. Sem saber o que fazer, o homem foi até a cama, abraçou a mulher juntamente com o filho e percebeu que havia feito uma terrível injustiça. Havia matado aquele que salvou sua família. Sua mulher não fora violentada e nem morta, assim como seu filho, porque Roy atacou o assaltante.

No futuro, o homem se mudou e adotou dois filhotes da mesma raça de Roy. Uma fêmea e um macho. Ao macho deu o nome de Truster (jogo de palavra para confiável, do original trustworthy) e à fêmea deu o nome de Hope.

Gustavo Gaspar

Quarta-feira, Janeiro 25, 2006

Abrindo os olhos...










As nuvens mudaram de posição e cor... Isso significa alguma coisa?
Lembro-me de alguém dizer algo à respeito na minha infância, algo sobre as nuvens, sobre as mudanças...
Tinha a ver com uma antiga lenda africana. Acho que significava mau agouro...
Faz apenas alguns minutos que levantei da cama. Como sempre, a primeira coisa que faço é olhar o tempo, ir a janela...
Mudança repentina, lenda africana, mau agouro, um dia pela frente...
Espero que tudo corra bem...

Quinta-feira, Setembro 08, 2005

Lendas Urbanas








Em todos os lugares existem estórias que assombram pessoas. Na maioria delas, são invenções, algo para assustar crianças talvez. Mas existem aqueles que juram ser verdade e que elas surgiram após acontecimentos sobrenaturais.
Como não poderia ser diferente, eu conheço muitas. Essas estórias são chamadas de “lendas urbanas”. E aqui irei contar algumas delas.

Irei começar com uma lenda urbana vinda de Curitiba. Leio sobre isso em alguns lugares e outras me contam pessoalmente. Amigos, primos, etc. Nessa região, é claro, com certeza muitas estórias assombram jovens e crianças. Nossa mente é muito maleável. Por ali, nos arredores de Curitiba, contam que um ser – chamem de demônio ou de qualquer coisa que desejarem – rege as sombras e a escuridão. À noite as crianças que conhecem essa versão de horror entram em desespero, tendo também aquelas que ao invés de se agarrarem às mães, se juntam e saem à caça de fantasmas – eu era um desses. Uma menina de 14 anos chamada Julia – segundo informações – foi quem deu vida a essa lenda urbana.
Em uma tarde, escurecendo, todas crianças já iam para suas casas. Era a hora de jantar e se deitar para o dia seguinte. Estava uma época ruim em relação ao tempo. Era uma chuva atrás de outra, acompanhada de ventos fortes que em um quarto escuro, com uma tv ligada, fazia barulho pelo ar, o assovio do medo, e balançava árvores que estalavam seus galhos no vidro da janela que o vento mortificava. Para os mais medrosos era perturbador. De certa forma, é de uma angustia ouvir isso e pensar em coisas. O comercial de um filme de terror que será exibido naquela noite após a novela. Isso colocava imagens pregadas em mentes ingênuas. Até que, de um súbito, a chuva aumenta, forte como o dilúvio. O vento castiga logo em seguida, como se um gigante estivesse soprando com toda sua fúria sobre todos. E a luz se apaga. O medo toma conta de um corpo pequeno. Imagina que algo está por perto, o comercial vem até sua cabeça lhe atormentar, o barulho irritante e apavorante de tudo soma-se ao estado de calafrios, fazendo a boca doer de angustia por não enxergar e o corpo inteiro estremecer diante de ruídos em volta do breu. O choro é quase que imediato, junto com gritos de pavor clamando que alguém a achasse naquela escuridão sem fim. Pedindo por ajuda. Implorando por perdões por tudo que tivesse feito até agora, mesmo que não fosse totalmente culpada. Queria tranqüilidade naquele momento, queria poder não ter medo. A mãe se desespera ao ouvir os prantos da filha e pede calma a ela. Já estava indo. Acende uma vela, sobe as escadas, o choro torna-se lamurias e cessa. Ao mesmo tempo em que quando chega no topo da escada a luz volta. Olhando para o quarto, que dava de frente com o corredor, ela vê a tv fora do ar, chiando, uma cama vazia e desarrumada. Caminha em direção a porta, entra, procura pela pequena e indefesa criança que a chamava desesperadamente e encontra silêncio. O vento continua a soprar, agora mais fraco. A chuva continua a cair, mais branda. E uma alma, desde aquele dia, continua desaparecida.
As histórias dizem que o senhor da escuridão busca todas as noites por uma nova filha e que Julia foi uma das escolhidas por ele, mas que nem sempre ele leva alguém, as vezes mata ou as vezes perturba – deixando-as loucas. Histórias de outros lugares, e até países, parecem com essa, mas contadas de uma forma diferente, com outra personagem, mas que lembram demais os acontecimentos. Desaparecimento, escuridão e medo.

Sexta-feira, Setembro 02, 2005

O lugar das almas










Ferido, muito ferido
Mas corri como jamais corri em minha vida
Já estava alcançando as portas do castelo
O barulho de grunhidos e pios lá de baixo eram avassaladores
Dor e sofrimento se traduziam em meus ouvidos
Por que aquela coruja tão bela, branca como a neve, me protegia?
Eu não possuo nenhum valor aqui
Nem mesmo em minha terra
Por que arriscar a vida para me salvar?
Dou uma última olhadela para aquele circulo sangrento e não vejo mais a coruja
Todos estão encobertos de poeira e um se põe sobre o outro
Ninguém me segue
Estou sozinho, livre para seguir meu caminho
Uma última olhada também a minha volta
Aqui existe um pouco de verde, a mata tenta crescer
Um pouco de branco, a neve cai um pouco aqui desse céu
Mesmo assim, ele continua rubro
A montanha é alta
Densa
Parece que a qualquer instante vai cai
Quando olhei da ponte percebi que em seu meio ela se afina
Depois engrossa novamente para seu auge
Impressionante!
Os barulhos continuam
Como aquela coruja agüenta tanto tempo?
Vou até a porte de madeira
É adornada com desenhos
Possui em seu centro um rosto indefinido
Eu diria que me lembra um homem
Mas é muito indefinido realmente
Logo aonde termina o desenho, no pescoço, existe um ferro
O formato é circular e pende diante da porta e de mim
Por onde eu tenho que puxar
Coloco minha mão nele
É quando o barulho cessa
Sem querer perder tempo eu puxo com força
Ela se arrasta devagar e abre aos poucos
Um breu sem tamanho ali dentro
Continuo puxando
Força, muita força, o que possuo em insuficiência
O medo me toma o corpo
O barulho havia terminado
Estariam os lobos em meu encalço?
Termino de abrir, e antes de entrar naquela escuridão eu olho de volta onde vi a luta
Fico pasmo
Eles não vieram até mim
Simplesmente me olham, ao que parece, na mesma posição que estavam quando o barulho parou
Alguns deitados, outros em pé, tortos, entre os mortos jogados pelo chão
A coruja não está ali
O que terá acontecido?
Dou um passo à frente
Outro, e outro, seguidos
Finalmente entro
A porta atrás de mim se fecha, estou livre
Ouço uivos lá fora
Uivos tristes
Derrota ou tristeza?
Uma luz se acende diante de mim
Muito forte
O olho que enxerga tem que ser fechado
O outro...
O outro também!
Pego em minha mão com a outra e sinto que meus dedos estão ali novamente
No lugar certo e que não deviam nunca ter saído
Uma felicidade corre meu corpo
Pareço vitalizado
A luz diminui aos poucos e minha vista se acostuma
O lugar é magnífico!
Lindo e colorido!
Sim, as cores, bem que o velho me disse
Peço perdão aos que se sacrificaram por mim diante de tal visão
Escorre-me uma lágrima de alegria pelos olhos
Ajoelho novamente mas em tom de agradecimento
Estou salvo
Sinto algo se aproximar
Olha para um lado, um lobo branco sentado ao meu lado
Olho para o outro lado, outro lobo branco na mesma posição
Contemplam o horizonte
Tudo límpido
É vasto ali em frente
Não é minha terra, mas é lindo e tranqüilo
Possui paz
Algo cai na minha frente
Olho e reconheço
Uma pena da coruja, com sangue
Oh minha protetora abençoada!
Agradeço-lhe por tudo!
Sinto algo vagar por minha face
Escorre e vaza em meu peito
Sangue!
Meu nariz escorre sangue outra vez
O céu escurece
Relâmpagos cortam o a vastidão que antes era bela
“A indecisão faz dos homens fracos. Se não sabes o que quer, pois então que pereças em tais terras”
A dor me corrompe
Meu corpo rui em rasgamentos
O pelo branco dos lobos se suja com o vermelho vivo de meu sangue
Juntos abocanham meu pescoço e meu olho se arregala
Minha mão se contorce
Nada posso fazer
Minha visão entorpece, fica escuro
Uma última visão, e não de montanhas e de céus me toma
O lobo negro caminha de costas sobre a folhagem seca de sua morada
E por fim minha alma é levada para junto dos outros...

Logo comentarei sobre este texto, que dou o gênero de novela, já que conta a passagem de um homem em um lugar desconhecido - lembraram de algo? - da forma poemática que se produz. O comentário será feito na página principal, DRACOANIMA.
Antes de finalizar, gostaria de fazer alguns agradecimentos:

À Kaka (Melzinho), que me incentivou a continuar, com este e outros textos. É e sempre será especial, pois me dá conselhos dentro e fora das páginas, é amiga e está junto comigo em um novo trabalho. Il mio poco miele.

À Fran (ninda), que se entusiasmou, transmitindo o mesmo a mim, leu e releu as passagens e sempre me deu vontade de continuar cada vez mais.

Muito obrigado as duas, mesmo. Poucas pessoas gostam disso, leitura, e muitas outras poucas pessoas acreditam em um trabalho. Os olhos as vezes se fecham em incapacidade.

Beijos carinhosos às duas, e abraços a todos que leram a novela.

Gustavo Gaspar